sábado, 28 de maio de 2011

~~'Frase - Dinely Borges


Eu não sei o que eu estou... Acho que não estou; eu sou o estado de não ser!

quarta-feira, 25 de maio de 2011

~~'Uma manhã de sábado em Abril -Conto - Dinely Borges


Era uma manhã de sábado nos últimos dias de Abril. Não era como as de Janeiro ou Fevereiro. A serra mineira não malograva e deixava a brisa fria entrar pela janela. Ela anunciava o inverno que não tardaria. Fabiana bem sabia disso.
   Ela sabia também que, como essa brisa, viria à exposição, as jaquetas de couro, e botas. Muitas botas. Sabia que teria cheiro de esterco e não ligava. A muito deixara de ir ver bois gordos se alimentando, enchendo o corpo de dinheiro. Sim, porque aquilo se vendia por quilo. Ela sabia que aquilo compraria pelo menos três casas da sua.
   Mas como disse, não ligava. Ou muda ou não muda. E não mudava. Quem mudaria? Ela que tinha uma casa que valia menos que a comida do boi? Então não se importava. Limitou-se em esticar as mangas verdes de sua blusa de frio rala. Era só de dormir, não fazia mal algum estar gasta e com alguns furos. Já tomara o café, e agora ela era tomada. A inércia bebia um pouco de Fabiana.
   Às vezes é bom não fazer nada. Então colocou um dos cotovelos sobre a mesa fria, assim apoiava a cabeça na palma da mão, era mais cômodo. E de olhos fechados, deixou a brisa fria de uma manhã de sábado no fim de Abril abraçar todo o seu corpo. Só depois os abriu vitoriosa. Olhou o contorno da janela. Aquele devia ser o contorno da brisa.
   Ficou admirada com o formato. Sabia que era retangular desde sempre. Mas não era o mesmo retangular daquela manhã. E seus olhos acompanharam a linha da tintura, muito bem feita, aliás. Não tinha início e nem fim. Cansada de revirar os olhos, decidiu olhar outra coisa. Ficaria louca se continuasse tentando achar uma saída naquela linha marrom que contornava a sua janela.
   Foi assim que se deparou com um céu límpido. O céu depois de sua janela que não havia grades. Coisa rara se considerarmos os perigos atuais. Devia ter grandes grades de ferro e um bom cadeado. Mas Fabiana não se deu ao luxo, e continuou olhando o céu de azul infinito. Nenhuma nuvem. Isso despertava nela uma incrível vontade de mergulhar em uma piscina. Talvez associasse o azul infinito do céu com o da piscina. Talvez se ela mergulhasse na piscina, estaria também mergulhando no céu. E o frio? Bom, era apenas uma brisa anunciante, nada com que se preocupar. Ela griparia mesmo. Sempre se gripa nessa época do ano.
   Mas a sua casa não tinha piscina. Então logo abandonou a ideia. Mas os seus olhos não abandonaram o céu. Ela tinha medo. Um medo absurdo de perder o azul do céu. Se por um instante olhasse de novo a linha marrom que contornava a janela de sua cozinha, ela poderia começar a se distrair com a mesa, a fruteira, e quem sabe ela não seria mais bebida pela inércia. Talvez saísse de vez da cozinha para não mais olhar o céu. E enfim, de tudo se esquecesse. Porém, a sua alma já estava certa: ou céu, ou piscina. Como eu disse, ela não tinha piscina, então era preciso fitar o céu. Provavelmente, na fazenda para onde o boi vai, tenha piscina. Tenha pista de pouso para helicópteros e muitos pastos de dinheiro. Pena que talvez ele nunca saia de seu canto, não conheça a sua piscina - nunca saiba o que é ser livre. Sentia pelo boi certa compaixão. Ele merecia ser livre, mas lembrou que a comida dele vale três vezes ou mais que sua casa e todas as janelas com vista para o céu. E Fabiana bem sabia que tudo que era muito caro, pedia, exigia, mesmo que o preço fosse a liberdade, devia-se pagar. Não era uma questão de escolha, de “ou”. Era assim e pronto.
   E como ela sabia sobre as coisas caras. Apenas estivera ali, sentada e só para descobrir que estava pagando o preço. Ela devia, e como devia. E estava pagando. Pagava o preço, nostálgica, com um pouco da sua manhã de sábado no mês de Abril. Sabia desde sempre que, como a linha marrom que contorna a sua janela, não tendo um início ou fim, era inútil procurar uma saída, o que ela sentia também era inútil de se encontrar solução. Fabiana era a brisa fria. Ela tinha que se adequar ao espaço da janela para poder passar.
   E quanto à piscina ou o céu? Bom, essa era a sua dívida. É que era tão jovem e de boa memória, então não podia esquecer. Ela não esquecera que fora em outra manhã de Abril que conhecera Maurício. E que ele, de felicidade, pulou na piscina. Disse a ela que não sentiu frio algum, que foi como nadar no céu. Ela desejou fazer isso também. Mas Maurício tinha piscina em casa e ela não. Os pais deles poderiam comprar bois como os da exposição. Isso era o de menos agora. O problema é que não poderia esquecer.
   Ela poderia esquecer-se de Maurício, e sim, já o havia esquecido. Mas não a saudosa sensação de se estar em uma manhã de sábado no mês de Abril, olhando para o céu azul, imaginando uma piscina. Estava pagando a sua dívida de pouco amor e estava pagando com a sua liberdade de fitar o céu sem imaginar a maldita piscina. Estava pagando com a liberdade e isso a igualava com o boi. E repetia para si mesma: As coisas são caras, e como são. Serei a brisa fria para passar, só para passar.

terça-feira, 24 de maio de 2011

~~'Clarice na cabeceira - Livro




A começar pela capa! Quem olha a foto que Erico Veríssimo tirou em um de seus muitos momentos com ela, pensa que foi tirada ontem mesmo! Clarice em suas vestes já demonstrava ser alguém fora de seu tempo. Alguém que está além do que o seu corpo, roupas, sapatos, jóias e todas as palavras poderiam mostrar. Clarice mantinha os pés no presente, porém a sua alma andava consciente no futuro. Ela foi, é e será toda ela. O tudo e o nada. Sem início e fim, mas inteira e infinita.

Eu ando praticando o desapego. Doo os livros que li e tenho certeza que não irei reler. Prática essa que recomendo. Se “Clarice na cabeceira” fosse meu, os outros que me desculpem, mas nem para a minha estante ele não iria. Ficaria sempre, como o próprio título inteligentemente sugere, na cabeceira. Mas como foi emprestado, e agradeço MUITO a quem emprestou, eu o devolvi. Não sem ter a sensação de quem devolve um chocolate para toda uma caixa de chocolates. E escrevendo dessa forma, sei que vivi um pouco do conto Felicidade Clandestina, um pequeno trecho para eu ser melhor compreendida:


“E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa,adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o,abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.
(Clarice Lispector- trecho do conto Felicidade Clandestina)

domingo, 22 de maio de 2011

~~'Re-play -Conto - Dinely Borges

Eu, em minha curta vida literária, nunca fui atraída por contos. Eu não tinha gosto por contos. Até que provei o gosto de Clarice Lispector. E eis que, agora, me deleito em escrevê-los.
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   Margarida esforçava-se para encontrar assunto, até mesmo os repetia. Ela e Amanda riam pela primeira vez. Depois riam de novo na segunda vez. Mostrando assim, que de fato o que foi dito era digno de se rir.
   Às vezes o assunto era sério, e riam do mesmo jeito. Riam também para não ter que conversar. Margarida tentava renovar a conversa com esforço infinito, mas Amanda, por sua vez, nunca passava do “oi” seguido de comentários e risos sobre o que se havia dito. Por isso riam. Riam pelo desespero do silêncio.
   Mas acontece que Margarida, muito popular, encontrou um conhecido. Esse já lhe dera sinais indiretos de admiração com certa malícia no olhar. Margarida ria disso também. O orgulho dela ria. Então, desprevenida, perdeu-se no beijo.
   O que aquele beijo foi lhe causar! Sentiu o que muitas línguas não puderam lhe fazer sentir. Sentiu o rosto arder por puro gosto do pecado. Surpreendeu-se com aqueles lábios que a tocaram. Logo ela que nunca os considerou! Espantou-se de como os poucos segundos do relógio passaram como se fossem longos cinco minutos.
    E ainda sentindo aqueles lábios comprimindo-se em sua bochecha rosada, desejou ardentemente que eles ali ficassem. Mas como é breve o prazer infinito, ele a deixou.
   Amanda havia se calado. Na boca, apenas o gosto amargo de sabe-se lá o que. Quando Margarida retornou de seu frenesi, continuaram a conversa. Agora repetindo o assunto pela terceira vez, afinal foram interrompidas. Riram de novo.
   O Sol deitou-se sob o horizonte e Amanda decidiu que era hora de ir-se também. Despediu de Margarida alegremente, pois agora não teria mais de rir de assuntos enfadonhos. Margarida por sua vez, estando sozinha, cambaleou-se em sua própria consciência. Queria entender o porquê dos beijos carinhosos de Gustavo não lhe causarem tanto ardor quanto aquele beijo do misterioso rapaz.
   Punia-se por desejar outro beijo em seu rosto. Apenas mais um beijo para sentir de novo... Logo ela, que nunca o considerou. E quem sabe ainda, se lhe fosse possível ter outro beijo, ela ainda se espantaria com o relógio e a velocidade dos segundos, que mais pareceriam minutos, traindo o tempo.




terça-feira, 17 de maio de 2011

~~'Promessas vãs - Dinely Borges


Onde estaria eu se não fosse pelas minhas promessas.
Como as amei um dia, e de amá-las passei a odiar.
Odiar promessas. E quem diria, odiá-las-ia mais.

Onde estaria eu se não fosse as minhas promessas.
O que eu prometi para eu mesma. Sim, foi isso que odiei.
Por não cumprir tudo, eu me odiei. É que não é o outro, sou eu.

Então prometi não prometer. E quando vi, já estava prometendo.
Hora, não há remédio? Queria não precisar disso.
Odiei quem fazia promessas. Por eu não cumprir as minhas,
Os outros também não poderiam cumprir... Seria injusto, seria um abuso.
E pior que isso, perguntei-me se deveria existir essa palavra pesada...
Que acusa os meus passos e os daqueles que a põe para fora dos lábios.

Prometi duvidar de promessas pela eternidade. Elas não eram dignas de serem pensadas.
Só assim eu estaria livre de prometer,
Se apenas essa promessa se cumprisse, uma única promessa,
Prometer não seria mais necessário.
Só assim eu acreditaria no verbo, e depois acreditaria mais, com esperança sincera.

sábado, 14 de maio de 2011

O som do coração


"Acredito em música como alguns acreditam em contos de fada"

"Ouça! Consegue ouvir?
A música?
Eu consigo ouvi-lá em qualquer lugar...
No vento, no ar, na luz, está ao nosso redor...
A gente só precisa se abrir... agente só precisa ouvir..."


"- O que você quer ser quando crescer?
  - Encontrado! " 

"- Há quanto tempo está aqui?
- Onze anos e dezesseis dias. Tenho contado!"

"No fundo, sei que eles sempre me quiseram."


"Sabe o que é música? Ligação harmônica entre todos os seres vivos."

"A música é um lembrete que Deus nos deixou de que existe algo além."

Something Inside  - Tradução







sexta-feira, 13 de maio de 2011

~~'Por que feliz


Hoje irei rir.
É que ontem as lágrimas eram pesadas demais,
Acordei cansada por tanto tempo tê-las carregado.

Irei rir do destino,
Do acaso...
Vou rir do amanhã também.

Não que esteja demasiadamente feliz,
Mas não serei triste até o fim.
E sorrindo farei a minha nova peça,
Outra comédia de mim. 

~~'Parágrafo-Dinely Borges


Porque ela vive bem, envolta de seus mistérios, de um mundo tão completamente seu. Então se lhe mostra um caminho, uma estrada de tijolos dourados, não a censures, posto que se o fizer, toda a estrada desaparecerá sob os seus pés e estarás perdido em completa escuridão. Escuridão essa que apenas ela caminha com leveza, sem tropeçar. Acostumou-se com a falta de luz, de amor. Ela não o ajudará. Terá que, através dos vales, encontrar um novo caminho, outra saída. Ela não é assim, não quer ser assim, mas agora, por demais cautela, repensa a palavra dita, repensa o ar que respira e quase se arrepende por cada batida de seu coração, pois conhece o sabor amargo da decepção. Se ela lhe mostra uma canção, então cante, pois é tarde, e ela não quer ouvir nada além de sua voz. Se ela lhe quer por perto, então fique, pois ela se acostumou com a solidão, e se logo se põe a ir, pode ser que ela não o peça para voltar. Se ela diz ter amor, apenas não a censures...

terça-feira, 10 de maio de 2011

domingo, 8 de maio de 2011

~~'Frase de Clarice Lispector



As coisas estavam de algum modo tão boas que podiam se tornar muito ruins porque o que amadurece plenamente pode apodrecer. Transgredir, porém, os meus próprios limites me fascinou de repente.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Frases - Dinely Borges


E tudo não passa de um ponto de vista, de uma opinião formada, do preconceito e do julgamento! É assim que somos, apesar de que tento pensar diferente, tudo é relativo.

domingo, 1 de maio de 2011

~~'A bailarina - Cecília Meireles

Antes de postar essa maravilhosa poesia , peço licença ao leitor para dizer em poucas palavras o motivo. Eu estava passando os olhos por alguns escritos da Cecília, quando me deparei com esse poema. Quantas recordações! Eu tinha 3 anos e a minha irmã 5. Nós duas cantávamos e dançávamos ele. E quem diria?! Desde criança eu vivia um pouco de Cecília!

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Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá
Mas inclina o corpo para cá e para lá

Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.

Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.


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