terça-feira, 24 de maio de 2011

~~'Clarice na cabeceira - Livro




A começar pela capa! Quem olha a foto que Erico Veríssimo tirou em um de seus muitos momentos com ela, pensa que foi tirada ontem mesmo! Clarice em suas vestes já demonstrava ser alguém fora de seu tempo. Alguém que está além do que o seu corpo, roupas, sapatos, jóias e todas as palavras poderiam mostrar. Clarice mantinha os pés no presente, porém a sua alma andava consciente no futuro. Ela foi, é e será toda ela. O tudo e o nada. Sem início e fim, mas inteira e infinita.

Eu ando praticando o desapego. Doo os livros que li e tenho certeza que não irei reler. Prática essa que recomendo. Se “Clarice na cabeceira” fosse meu, os outros que me desculpem, mas nem para a minha estante ele não iria. Ficaria sempre, como o próprio título inteligentemente sugere, na cabeceira. Mas como foi emprestado, e agradeço MUITO a quem emprestou, eu o devolvi. Não sem ter a sensação de quem devolve um chocolate para toda uma caixa de chocolates. E escrevendo dessa forma, sei que vivi um pouco do conto Felicidade Clandestina, um pequeno trecho para eu ser melhor compreendida:


“E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa,adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o,abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.
(Clarice Lispector- trecho do conto Felicidade Clandestina)

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