domingo, 22 de maio de 2011

~~'Re-play -Conto - Dinely Borges

Eu, em minha curta vida literária, nunca fui atraída por contos. Eu não tinha gosto por contos. Até que provei o gosto de Clarice Lispector. E eis que, agora, me deleito em escrevê-los.
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   Margarida esforçava-se para encontrar assunto, até mesmo os repetia. Ela e Amanda riam pela primeira vez. Depois riam de novo na segunda vez. Mostrando assim, que de fato o que foi dito era digno de se rir.
   Às vezes o assunto era sério, e riam do mesmo jeito. Riam também para não ter que conversar. Margarida tentava renovar a conversa com esforço infinito, mas Amanda, por sua vez, nunca passava do “oi” seguido de comentários e risos sobre o que se havia dito. Por isso riam. Riam pelo desespero do silêncio.
   Mas acontece que Margarida, muito popular, encontrou um conhecido. Esse já lhe dera sinais indiretos de admiração com certa malícia no olhar. Margarida ria disso também. O orgulho dela ria. Então, desprevenida, perdeu-se no beijo.
   O que aquele beijo foi lhe causar! Sentiu o que muitas línguas não puderam lhe fazer sentir. Sentiu o rosto arder por puro gosto do pecado. Surpreendeu-se com aqueles lábios que a tocaram. Logo ela que nunca os considerou! Espantou-se de como os poucos segundos do relógio passaram como se fossem longos cinco minutos.
    E ainda sentindo aqueles lábios comprimindo-se em sua bochecha rosada, desejou ardentemente que eles ali ficassem. Mas como é breve o prazer infinito, ele a deixou.
   Amanda havia se calado. Na boca, apenas o gosto amargo de sabe-se lá o que. Quando Margarida retornou de seu frenesi, continuaram a conversa. Agora repetindo o assunto pela terceira vez, afinal foram interrompidas. Riram de novo.
   O Sol deitou-se sob o horizonte e Amanda decidiu que era hora de ir-se também. Despediu de Margarida alegremente, pois agora não teria mais de rir de assuntos enfadonhos. Margarida por sua vez, estando sozinha, cambaleou-se em sua própria consciência. Queria entender o porquê dos beijos carinhosos de Gustavo não lhe causarem tanto ardor quanto aquele beijo do misterioso rapaz.
   Punia-se por desejar outro beijo em seu rosto. Apenas mais um beijo para sentir de novo... Logo ela, que nunca o considerou. E quem sabe ainda, se lhe fosse possível ter outro beijo, ela ainda se espantaria com o relógio e a velocidade dos segundos, que mais pareceriam minutos, traindo o tempo.




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