quarta-feira, 25 de maio de 2011

~~'Uma manhã de sábado em Abril -Conto - Dinely Borges


Era uma manhã de sábado nos últimos dias de Abril. Não era como as de Janeiro ou Fevereiro. A serra mineira não malograva e deixava a brisa fria entrar pela janela. Ela anunciava o inverno que não tardaria. Fabiana bem sabia disso.
   Ela sabia também que, como essa brisa, viria à exposição, as jaquetas de couro, e botas. Muitas botas. Sabia que teria cheiro de esterco e não ligava. A muito deixara de ir ver bois gordos se alimentando, enchendo o corpo de dinheiro. Sim, porque aquilo se vendia por quilo. Ela sabia que aquilo compraria pelo menos três casas da sua.
   Mas como disse, não ligava. Ou muda ou não muda. E não mudava. Quem mudaria? Ela que tinha uma casa que valia menos que a comida do boi? Então não se importava. Limitou-se em esticar as mangas verdes de sua blusa de frio rala. Era só de dormir, não fazia mal algum estar gasta e com alguns furos. Já tomara o café, e agora ela era tomada. A inércia bebia um pouco de Fabiana.
   Às vezes é bom não fazer nada. Então colocou um dos cotovelos sobre a mesa fria, assim apoiava a cabeça na palma da mão, era mais cômodo. E de olhos fechados, deixou a brisa fria de uma manhã de sábado no fim de Abril abraçar todo o seu corpo. Só depois os abriu vitoriosa. Olhou o contorno da janela. Aquele devia ser o contorno da brisa.
   Ficou admirada com o formato. Sabia que era retangular desde sempre. Mas não era o mesmo retangular daquela manhã. E seus olhos acompanharam a linha da tintura, muito bem feita, aliás. Não tinha início e nem fim. Cansada de revirar os olhos, decidiu olhar outra coisa. Ficaria louca se continuasse tentando achar uma saída naquela linha marrom que contornava a sua janela.
   Foi assim que se deparou com um céu límpido. O céu depois de sua janela que não havia grades. Coisa rara se considerarmos os perigos atuais. Devia ter grandes grades de ferro e um bom cadeado. Mas Fabiana não se deu ao luxo, e continuou olhando o céu de azul infinito. Nenhuma nuvem. Isso despertava nela uma incrível vontade de mergulhar em uma piscina. Talvez associasse o azul infinito do céu com o da piscina. Talvez se ela mergulhasse na piscina, estaria também mergulhando no céu. E o frio? Bom, era apenas uma brisa anunciante, nada com que se preocupar. Ela griparia mesmo. Sempre se gripa nessa época do ano.
   Mas a sua casa não tinha piscina. Então logo abandonou a ideia. Mas os seus olhos não abandonaram o céu. Ela tinha medo. Um medo absurdo de perder o azul do céu. Se por um instante olhasse de novo a linha marrom que contornava a janela de sua cozinha, ela poderia começar a se distrair com a mesa, a fruteira, e quem sabe ela não seria mais bebida pela inércia. Talvez saísse de vez da cozinha para não mais olhar o céu. E enfim, de tudo se esquecesse. Porém, a sua alma já estava certa: ou céu, ou piscina. Como eu disse, ela não tinha piscina, então era preciso fitar o céu. Provavelmente, na fazenda para onde o boi vai, tenha piscina. Tenha pista de pouso para helicópteros e muitos pastos de dinheiro. Pena que talvez ele nunca saia de seu canto, não conheça a sua piscina - nunca saiba o que é ser livre. Sentia pelo boi certa compaixão. Ele merecia ser livre, mas lembrou que a comida dele vale três vezes ou mais que sua casa e todas as janelas com vista para o céu. E Fabiana bem sabia que tudo que era muito caro, pedia, exigia, mesmo que o preço fosse a liberdade, devia-se pagar. Não era uma questão de escolha, de “ou”. Era assim e pronto.
   E como ela sabia sobre as coisas caras. Apenas estivera ali, sentada e só para descobrir que estava pagando o preço. Ela devia, e como devia. E estava pagando. Pagava o preço, nostálgica, com um pouco da sua manhã de sábado no mês de Abril. Sabia desde sempre que, como a linha marrom que contorna a sua janela, não tendo um início ou fim, era inútil procurar uma saída, o que ela sentia também era inútil de se encontrar solução. Fabiana era a brisa fria. Ela tinha que se adequar ao espaço da janela para poder passar.
   E quanto à piscina ou o céu? Bom, essa era a sua dívida. É que era tão jovem e de boa memória, então não podia esquecer. Ela não esquecera que fora em outra manhã de Abril que conhecera Maurício. E que ele, de felicidade, pulou na piscina. Disse a ela que não sentiu frio algum, que foi como nadar no céu. Ela desejou fazer isso também. Mas Maurício tinha piscina em casa e ela não. Os pais deles poderiam comprar bois como os da exposição. Isso era o de menos agora. O problema é que não poderia esquecer.
   Ela poderia esquecer-se de Maurício, e sim, já o havia esquecido. Mas não a saudosa sensação de se estar em uma manhã de sábado no mês de Abril, olhando para o céu azul, imaginando uma piscina. Estava pagando a sua dívida de pouco amor e estava pagando com a sua liberdade de fitar o céu sem imaginar a maldita piscina. Estava pagando com a liberdade e isso a igualava com o boi. E repetia para si mesma: As coisas são caras, e como são. Serei a brisa fria para passar, só para passar.

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