sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

~~'A um ausente - Carlos Drummond de Andrade


Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

~~'Arte de amar - Manuel Bandeira


"Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não."



domingo, 4 de dezembro de 2011

~~'Parágrafo-Dinely Borges



O estado de solidão jogava-a em um caminho, embora muitas vezes sombrio, mas repleto de certezas. E quando se desviava desse caminho, o seu mundo dividia-se em dois. A realidade era incerta e gritava. Gritava amor... Ela que em outra época dissera que andava sempre do mesmo jeito, que matinha sentimentos imutáveis e esperava o desespero como quem espera ansiosamente alguém querido... Ah, ele a lembrava o quão imutáveis eram os seus sentimentos. O tempo passava, mas ela não. Ela era em si, imutável, embora soubesse por sua solidão que a vida é transição e mudança. Ela que conhecia o amor e os seus mistérios de não lhe pertencer, ainda que ele vivesse nela, pulsando mais vivo que o desejado, ela não vivia nele, apenas o via. Espectadora de si mesma. Mas as águas de um mar suave tocaram em seus pés e o horizonte mostrou-lhe o nascer do Sol, um céu que nunca vira antes... Muito sutilmente deixou-se levar pelos braços do mar. Não olhara para a sua solidão, perdera-se de seu mundo de certezas. A única certeza agora era que vivia o amor, o amor que não existia, agora era suave. Em suas preces, ela agradece a Deus esses dias de luz, mas pede, como se esse fosse o seu único e último pedido: “... por favor, não me deixe afogar... por favor, não me afogue”. 
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